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  • Zé Ricardo (TrEiNoPeT)

Cão Estressado e/ou Reativo

Um tutor de cão, amigo e visitante frequente do meu blog sugeriu que eu redigisse e publicasse um artigo a partir do seguinte enunciado:


" Um problema que eu ainda não resolvi plenamente é a agressividade que meu cachorro apresenta eventualmente contra outros cães. Eu observo que, depois de uma boa jornada de exercício, ele não tem esse comportamento. Estaria essa agressividade relacionada a algum fator estressante que é aliviado com o exercício? "

O problema que ele enfrenta me foi apresentado assim, sem detalhes. De qualquer modo, antes de prosseguir, posso afirmar categoricamente que há uma evidente relação entre estresse, emoção e comportamento, assim como os efeitos do exercício no controle do estresse são bem conhecidos.

Em condições normais de trabalho 1:1, eu iniciaria uma avaliação detalhada, uma verdadeira investigação, onde a resposta a cada pergunta poderia gerar uma nova hipótese, que poderia gerar novas perguntas e assim por diante. Entretanto, se não é isso que vou fazer aqui, o que será? Vou partir de algumas generalizações para criar um artigo que, em linhas gerais, seja relevante para uma maioria de leitores potenciais, na qual o leitor em questão provavelmente estará incluído.

É importante dizer que, se eu fosse abordar todos os ângulos desse assunto, eu teria que escrever um livro. Mas há vários livros incríveis escritos por autores fantásticos que abordam tudo isso. Então, vou me limitar a dar umas pinceladas em alguns pontos que todo tutor deve ter sempre em mente. Lá vai!


A esmagadora maioria dos cães que parecem agressivos quando passam por outros cães durante os passeios pode ser classificada como "reativa na guia em relação a outros cães", em vez de "agressiva". Todo aquele estardalhaço que esses cães fazem – alguns dando a impressão de que matariam o outro cão se lhes fosse dada a oportunidade – quase sempre está baseado em medo (e algumas vezes em frustração). É simples e vai ficar claro a seguir, mas você também pode acessar aqui um artigo curto e geral sobre reatividade em cães.


Você já deve ter ouvido falar em imprinting e socialização, mas pode clicar nesse link caso queira ver um artigo sobre isso. Por ora, o que você precisa saber é que seu cão pode ser reativo em relação a outros cães por ter tido o período de imprinting interrompido muito cedo ou por ter passado por experiências ruins durante a chamada 'janela de socialização', entre outras causas possíveis.


O cérebro dos cães é, em muitos aspectos, bastante semelhante ao cérebro dos humanos. Ambos incluem um sistema límbico, que é onde memórias e emoções são armazenadas. Além disso, ambos os cérebros compartilham basicamente a mesma química. E, assim como os humanos, os cães são susceptíveis a estados e problemas emocionais, tais como medo, estresse, frustração, raiva, ansiedade e depressão.


Frequentemente, nos pegamos tentando identificar um fator preponderante que explique o estresse de nosso cão, mas a verdade é que, em muitos caso, isso pode ser quase uma perda de tempo se a vida do cão for parecida com a que eu vou descrever no próximo parágrafo.


Você já se deu conta de que seu cão vive em cativeiro? Já se imaginou vivendo nas condições em que ele vive e o que aconteceria com seu estado emocional? É claro que eu estou generalizando, mas a maioria vive mais ou menos assim:


  • pouco contato social com seus semelhantes;

  • pouca liberdade (sem o direito de ir e vir);

  • isolamento forçado por longos períodos, especialmente nos dias de semana, quando as pessoas saem sem que ele saiba aonde foram e quando vão voltar;

  • angústia da espera pelo dono e pela hora do passeio, que pode até não acontecer;

  • tédio por não ter nada diferente para fazer ou, pior, por não ter absolutamente nada para fazer;

  • poucas oportunidades para manifestar comportamentos naturais instintivos (correr, caçar, forragear, roer etc.);

  • frustração por se esforçar e não compreender nossa língua; etc..


Agora, suponhamos que você tenha um cão que seja inseguro e não queira que outro cão invada o raio de segurança dele. Talvez, por várias razões, ele não confie em cães de vários tipos e tamanhos, e o raio de segurança dele seja amplo (ele só não se sente invadido se o outro cão estiver bem distante).


Imaginemos agora o cão inseguro vivendo nas condições já descritas. Ele estará sempre no limite, prestes a explodir, compreende?


Mas, agora, ele está na rua, preso numa guia, sabendo que não pode fugir. Então, quando ele avistar algo de que ele tenha medo, a única coisa que ele pode é tentar fazer com que a ameaça vá embora, exibindo um comportamento terrível de intimidação e agressividade.


A ameaça vai passar e se distanciar, pois era o que aconteceria de qualquer jeito. Só que, na cabeça do cão, foi o comportamento físico o estado emocional dele que deu resultado. Aquele comportamento acabou de ser reforçado e tem uma alta probabilidade de se repetir, podendo chegar a se tornar automático. É assim que o aprendizado funciona.


Para revertermos um quadro assim, precisamos atuar em várias frentes de modo estruturado:


(1) enriquecer a rotina diária e corrigir o manejo das situações cotidianas para melhorar a qualidade de vida do cão, abordando todos aqueles pontos (fracos) que eu citei;


Caso você queira se informar sobre o que pode ser feito em termos de manejo, exercícios físicos e atividades cognitivas, bem como sobre a utilização de brinquedos para cães, use esses dois links.


(2) adotar o adestramento positivo para ensinar ao cão alguns comportamentos de obediência básica que usaremos para construir os treinos específicos;


(3) modificar a resposta emocional do cão em relação à aproximação de outros cães durante os passeios.


Não é tão complicado quanto pode parecer, mas requer planejamento, perseverança e alguma experiência. Em minha opinião, o apoio de um adestrador profissional qualificado e atualizado é inestimável. Um bom orientador pode evitar os erros comuns e fazer com que todo o processo flua na direção certa e de forma eficiente.


Nesta altura, você deve estar pensando assim: "Ok, vou procurar a ajuda de um adestrador. Mas o que eu posso e devo fazer por enquanto?" Pois bem, eu tenho algumas recomendações importantes.


Evite sair com seu cão para passear enquanto ele estiver excitado.


Quando o cachorro de algum cliente meu fica excitado ao perceber que vai passear, eu costumo orientar o cliente sobre várias melhorias que devem ser feitas na rotina diária e no manejo de situações específicas. A medida mais óbvia a ser tomada é: não prenda a guia ao cachorro enquanto ele não puder oferecer um comportamento minimamente tranquilo, como sentar.


Outro ponto: se seu cachorro acabou de jogar ou brincar de alguma coisa excitante, este não é o melhor momento para iniciar um passeio. Seus níveis de adrenalina devem estar aumentados, o que torna seu cão mais suscetível de ser reativo.


Nas duas situações que acabei de comentar (como, na verdade, em qualquer outra), seria muito legal se você ajudasse seu cachorro a se acalmar e relaxar antes de começar o passeio. A ideia de fazer uma massagem relaxante na minha cadela me agrada bastante e costuma ser eficaz. Isso não significa acabar com qualquer comportamento reativo, mas é evidente a vantagem de iniciar um passeio calmo e relaxado, em vez de já num estado de excitação: o limiar de reatividade do cão estará aumentado, bem como a capacidade dele de retornar mais rapidamente a um estado calmo.


Assumir um estado de espírito calmo também se aplica a você!


Você pode estar se sentindo tenso, ansioso ou irritado, seja por problemas pessoais ou profissionais, ou porque já está esperando o pior do seu cão, mas ele vai perceber que você está assim e começará a procurar ativamente no ambiente uma causa para essa sua preocupação. Uma técnica bem aplicada de respiração lenta e profunda costuma ajudar a maioria das pessoas, mas procure também algo que funcione melhor para você.


Quando você está estressado, é normal que você respire mais rápido e menos profundamente. Seu cão é um mestre em perceber detalhes desse tipo, e isso pode gerar nele algum grau de tensão, tanto emocional quanto postural. Portanto, se (além dos exercícios de respiração pré-passeio) você puder ficar atento à sua respiração durante a caminhada com seu cão, isso terá um efeito calmante tanto em você quanto nele.


É comum que os condutores também se comportem de maneira reativa quando avistam aquilo que faz seu cão se comportar de maneira reativa. O simples fato de você tensionar a guia passa uma mensagem que o cão percebe com extrema precisão e o faz ver o que só você tinha visto. E ele não só vê o que te causou preocupação, mas associa o que ele vê com a mensagem que você está transmitindo a ele inadvertidamente: "meu dono também acha que aquilo é uma ameaça".


Agora, falando do momento em que seu cão expressa um comportamento reativo em relação a algum estímulo (outro cão, por exemplo), se o tutor (ou o condutor) grita e puxa a guia, isso só coloca mais lenha na fogueira.


Eu sei o quanto é difícil manter a calma nessas horas, mas também sei o quanto isso é essencial. Por isso é que eu proponho que você faça algo para desestressar antes de sair para passear. Ao mesmo tempo ou logo após seu processo de descompressão pessoal, pense nas situações que podem ocorrer no passeio com o cão e se imagine lidando com elas da forma adequada. Pense antes no que você deve fazer para que não tenha que decidir na hora H. No calor do momento, não dá tempo de pensar, e a nossa reação automática é quase sempre ruim.


Mantenha a guia frouxa


Estar na guia limita as opções do seu cão, não sendo algo natural para ele, por mais que ele esteja acostumado. Manter uma tensão na guia quase o tempo todo faz com que o cão perceba continuamente a restrição a que está submetido, o que aumenta a chance de exibição do comportamento reativo. Sua técnica de lidar com a guia é crucial. Portanto, se você ainda não ensinou seu cão a andar na guia sem puxar, invista seu tempo nisso. Também ajuda demais ensiná-lo a caminhar do seu lado e olhar para você sob comando.


Não leve o celular quando sair com seu cão

(ou, pelo menos, não olhe o celular durante os passeios)


Aqui, vou citar duas coisas que eu considero realmente importantes, que eu sempre faço nos meus passeios com a minha cachorra, e que exigem de mim bastante atenção:


(1) sempre que a Shiba olhar para mim espontaneamente, eu faço questão de estar pronto para retribuir o olhar e elogiá-la; e


(2) sempre que houver outro cão no nosso campo de visão, eu quero estar ciente para jamais deixar que eu e ela sejamos surpreendidos.


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Agora, me conte: o que você achou desse artigo? Do que você gostou e o que você não achou legal? Quais são suas ideias e suas experiências nesse tema? Comente! Compartilhe!