• Zé Ricardo (TrEiNoPeT)

Não Piore a Agressividade / a Reatividade do seu Cachorro



As pessoas em geral não sabem que suas próprias atitudes (ou a falta da atitude necessária) podem contribuir para piorar problemas de agressividade ou reatividade em cães. Então, vou falar aqui de algumas das principais coisas que as pessoas não devem fazer se não quiserem botar mais lenha na fogueira.


Para saber o que significa reatividade, leia:

https://www.treinopet.com.br/post/o-que-e-reatividade-em-caes



9. Gritar com o cachorro


Gritar só é válido quando alguém está tão longe de você que não vai conseguir te ouvir de outra maneira.


Os cães têm uma audição excelente, e não há qualquer razão para gritar com eles. Gritos e mau humor só fazem piorar a agressividade do seu cão.


Examine este exemplo, do ponto de vista do seu cão:

  • Ele vê algo, fica agressivo e começa a latir

  • Você fica irritado e grita com ele

No entendimento dele, você se juntou a ele, apresentando o mesmo tipo de reação que a dele. Quase nenhum cão entenderia que o dono está zangado com ele, por ele ter reagido de forma exagerada a uma situação normal (normal do nosso ponto de vista, não do dele). O que a maioria esmagadora dos cães entende é que o dono também ficou furioso naquela situação. É como se o dono estivesse confirmando que aquele é o comportamento necessário naquela situação, o que fará com que o cachorro reaja da mesma maneira ou pior das próximas vez.



8. Dar trancos na guia


O treinamento de cães da escola "tradicional" (ultrapassada) indicaria dar trancos na guia quando o cachorro demonstrasse uma reação agressiva. Muitas vezes, fazer isso pode piorar as coisas.


A "correção" com a guia (como alguns chamam esses trancos ou puxões) quase sempre é aplicada com atraso. Para que tivesse chance de ser eficaz, a "correção" teria que ser aplicada no instante em que o cachorro estivesse começando a "pensar" em ficar agressivo.


Mas, verdade seja dita, 95% das pessoas normais não passam o tempo inteiro observando atentamente a sutil linguagem corporal de seus cães. O mais comum é o dono se dar conta quando o cachorro já está tomado pela emoção negativa que praticamente o impede de reagir de outra forma.


Outra coisa que a maioria das pessoas não pensa é que os cachorros vêem as coisas de formas diferentes de nós humanos. Como adestrador, eu tento dar o meu melhor para ver as coisas da perspectiva do cachorro.


Um humano pensa que está "corrigindo" um comportamento indesejável. Porém, como já dissemos, a "correção" geralmente chega com atraso. O cão, por sua vez, vê o estímulo que causa nele a reação agressiva (pessoa, cachorro, skate etc.) e, então, sente a "correção". Após algumas repetições, o cão já associa a "correção" com o estímulo ao qual ele já era reativo. Assim, o cachorro tem agora mais um motivo para querer atacar aquilo que ele já não gostava. Geralmente, isso faz com que o cão fique cada vez mais agressivo nas próximas vezes.



7. Usar coleira eletrônica


Infelizmente, as coleiras eletrônicas estão voltando no treinamento de cães, especialmente nos Estados Unidos. Mas esse tipo de ferramenta foi banido de países como Áustria, Dinamarca, Finlândia, Alemanha e outros.


Poderíamos discutir os atributos de uma boa coleira eletrônica e os perigos de um produto "genérico". Também seria possível dialogarmos sobre situações, formas de utilização etc.. Mas eu optei por me ater a uma frase famosa, de autoria do Dr. Ian Dunbar:


"Para usar choque como método eficaz de treinamento de cães, você precisa de: uma compreensão completa de comportamento canino; uma compreensão completa de teoria da aprendizagem; e exatidão no momento da aplicação do choque. Mas quem tem essas competências não precisa usar uma coleira eletrônica."

Muitas pessoas vão até uma grande Pet Shop, compram uma coleira eletrônica (em geral, genérica, pois as de fabricantes com know-how são caras), prendem-na ao pescoço do cachorro (sem uma adaptação prévia) e saem dando choques no cachorro por qualquer deslize. Isso é lamentável e pode ser perigoso em casos de agressividade.


Vejamos um exemplo similar ao que descrevemos no caso de "dar puxões na guia":

  • Um cão (que apresenta agressividade em relação a outros cães) avista outro cão e começa a ficar perceptivelmente agressivo aos olhos de seu dono.

  • O dono, então, aciona a coleira eletrônica.

  • O cachorro leva o choque, mas não entende que o choque veio de seu dono, e associa o choque ao outro cão (acontece com muitos cães).

  • Como ele não pode morder aquele outro cão (devido à restrição da guia), ele pode redirecionar o ataque e morder qualquer pessoa ou bicho que esteja ao alcance deles.

Nem todo cão faz isso, mas vários se comportam assim, redirecionando a agressão quando estão na guia ou de um dos lados de uma cerca. E o choque pode interromper a ação de alguns cães, mas esse mesmo choque pode fazer com que outros cães intensifiquem sua reação.



6. Ficar nervoso


Seu cão é capaz de perceber mudanças sutis em você por intermédio da guia e por outros detalhes.


Quando você fica nervoso, você pode não apenas alimentar a agressividade do seu cão, mas também pode "ensinar" um cão aparentemente controlado a reagir.


Donos de cães costumam ficar tensos quando vêem aquilo que funciona como gatilho para seu cão (pessoa, outro cão etc.). Geralmente, o que os donos fazem nessas horas é tensionar a guia, puxar o cão para perto, enrolar a guia na mão, mudar a forma de caminhar e/ou dizer algumas palavras em tom de voz alterado. Isso funciona como uma confirmação para o cão, do tipo "meu dono, assim como eu, também fica preocupado com aquilo".


Talvez você já tenha passado por alguma situação na qual teve a impressão de que seu cão só ficou agressivo depois que você viu a "coisa" (pessoa, cão, bicicleta etc.) que te fez ficar preocupado com a reação que seu cão teria. Nesse caso, é provável que seu cão ainda nem tivesse visto o outro cão (ou outro gatilho) ou não o tivesse enxergado como uma ameaça, mas foi a sua atitude que enviou um sinal para deflagrar a reação do seu cão.


Essa antecipação do que pode estar por vir é super-compreensível, mas nós precisamos estar conscientes e exercitar nossa mente para que isso não aconteça. Manter a calma e agir de forma inteligente e premeditada é sua melhor opção ao lidar com um cão agressivo, pois você estará mostrando a ele que não há nada a temer naquela situação.



5. Não ensinar o cão a passear na guia


Um número grande de pessoas ensina seus cães a sentar, deitar, dar a pata, rolar, girar e outros truques. Muitas dessas mesmas pessoas não dão tanta importância a alguns treinamentos que estão entre os que eu mais gosto, como é o caso de vir ao ser chamado, ficar/esperar, passear sem puxar, caminhar junto e olhar no olho do dono.


Eu acho uma pena que a maioria das pessoas simplesmente ponha a coleira no cachorro e saia para passear, sem antes ter dedicado um tempo para ensinar boas maneiras na guia. Ensinar seu cão a andar junto e olhando para os seus olhos é uma tarefa trabalhosa, mas vale a pena cada segundo investido.


Agora, imagine que você esteja passeando com um cão reativo e note que outro cão (ou outra coisa) esteja se aproximando. Mas você fez o dever de casa completo: seu cão é capaz de colar do seu lado e olhar pra você se você pedir, inclusive na presença de distrações. Passar por outro cão, pelo caminhão de lixo ou por qualquer outra coisa que antes desencadeava uma reação agressiva no seu cão, agora é possível, porque você deu ao cão uma alternativa.



4. Não socializar o cão


Socialização não é algo que se faz apenas com filhotes. Além disso, o que você chama de socialização não deve ser a mesma coisa na qual eu estou pensando.


Para mim, socialização não é deixar um cachorro correndo e brincando com outros cães em um parcão e ficar despreocupado olhando o celular. Você não conhece a maioria dos outros cães e a maioria dos donos dos outros cães. Muitos donos de cães que já manifestaram agressividade acreditam que devem levar seus cães a um parcão para que eles se tornem mais sociáveis. Então, seu cão pode acabar traumatizado pelo resto da vida ou entrar numa briga e sair seriamente ferido.


Eu prefiro pensar em "socializar" no sentido de treinar e brincar com meu cão perto de outros cães. A interação livre entre cães também é muito bem-vinda quando o comportamento dos cães for conhecido e previsível, e sob supervisão.


Eu penso em socialização de forma análoga à habituação no seguinte exemplo: eu quero habituar meu cachorro com britadeiras e ruídos de um prédio em construção, mas jamais vou deixar meu cachorro solto num canteiro de obra. O que eu vou fazer é trabalhar positivamente com meu cão enquanto mantenho essas coisas em segundo plano.


Você vai querer complementar sua leitura com os seguintes artigos:

https://www.treinopet.com.br/post/cao-filhote-socializacao-e-quarentena



3. Permitir tédio e frustração


Cães entediados e/ou frustrados podem fazer coisas horríveis (horríveis aos olhos humanos, pelo menos). Um cachorro entediado e/ou frustrado procura válvulas de escape e as encontra. E, por mais que os humanos não queiram aceitar, agir agressivamente pode acabar sendo um passatempo para um cão.


Para minimizar o tédio, você precisa oferecer ao seu cão uma rotina enriquecida com passeios, exercício físico, estimulação mental, brincadeiras, adestramento positivo, brinquedos (especialmente mordedores e comedouros interativos) etc..


Com uma rotina rica, seu cão não terá muito tempo para se sentir frustrado, mas você ainda deve evitar que ele tenha chances de acumular frustração. Vejamos um exemplo:


Não é legal você deixar seu cachorro do lado de fora da casa num horário onde ele possa ver e ouvir outros cães e pessoas indo e vindo. Observar outros cães e pessoas fazendo coisas "divertidas" e não poder se juntar a eles pode ser muito frustrante. Quando seu cão se sente frustrado dia após dia, essa frustração pode se transformar em agressividade. E se, dia após dia, essa frustração vier associada a uma determinada pessoa, pessoas em geral ou cães, seu cão pode ficar condicionado e reagir agressivamente ao ver aquela pessoa, pessoas em geral ou cães em situações diferentes da original.


Com certeza, você também vai se interessar pelos seguintes artigos relacionados:

https://www.treinopet.com.br/post/cao-estressado-e-ou-reativo

https://www.treinopet.com.br/post/brinquedo-de-cao-e-coisa-seria



2. Incentivar


Quem, em sã consciência, encorajaria a agressividade? Acho que ninguém, mas o problema é que podemos fazer isso inadvertidamente.


É inegável que as coisas que você comunica ao seu cão são muito importantes para ele. Outro fato é que seu cachorro é um verdadeiro mestre em captar suas "mensagens" mais sutis, ainda que você as "envie" sem sequer perceber.


Por exemplo, seu cão late ao ouvir uma campainha num filme ou novela de TV, como se ela fosse real, e você acha aquilo engraçado e ri. Pode ser que seu cão tome seu riso como sinal de aprovação e, nesse caso, você estaria reforçando o latido para o som da campainha.


Nas interações com nossos cães, precisamos estar sempre conscientes dos nossos comportamentos e de como eles podem estar afetando nossos cães.


Isso também vale para aquele cara esquisitão para quem seu cachorro rosnou na rua (exemplo externo). Se você o encorajou, talvez ele passe a adotar o mesmo comportamento contra pessoas em quem você confia.


Talvez você não se importe quando seu cachorro ameace de morte os entregadores de pizza (outra situação em casa), mas provavelmente você fica bem chateado quando ele faz a mesma coisa enquanto você recebe visitas.


Sua melhor opção é desencorajar a agressividade em geral e ensinar a seu cão que é você o responsável por se proteger na rua e tomar conta da casa.



1. Esperar que melhore


Já conversei com muitas pessoas que acreditavam que a agressividade poderia passar com o tempo. Mas a verdade é que, em 99,9% dos casos, isso não acontece. Pelo contrário, deixar pra lá pode levar a mais e mais agressividade.


Também há muita negação quando se lida com cães agressivos, acho que é da natureza humana...


Mas o que faz diferença é aceitar que existe um problema e que ele precisa ser tratado, bem como se conscientizar de que uma mudança desse tipo pode requer bastante dedicação. E é muito provável que você se saia muito melhor com a ajuda de um adestrador profissional positivo, qualificado e atualizado.


E você, se identificou com alguma dessas situações? Quer deixar uma pergunta nos comentários ou compartilhar com a gente suas experiências nesse tema?

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