• Zé Ricardo (TrEiNoPeT)

SOCIALIZAÇÃO de filhotes com SEGURANÇA - Relação com COVID-19

Atualizado: Jan 27



Há um período na vida dos filhotes – até cerca de 4 meses – quando os filhotes são vacinados várias vezes, mas não podem ser considerados totalmente imunizados devido à interferência de anticorpos maternos que ainda podem estar circulando no organismo dos filhotes. (A preocupação maior é com a parvovirose e a cinomose.)


Por outro lado, uma série de estudos bastante convincentes (alguns nem tão recentes) identificou essa mesma fase como o período sensível à socialização e habituação dos filhotes, ou seja, é um período "quase mágico" – e bem curto – no qual os filhotes estão muito mais abertos a novas experiências que os farão crescer como cães autoconfiantes.


A coincidência dessas duas verdades científicas no mesmo período coloca os tutores diante de um dilema, quando eles levam pra casa um filhote de 8 semanas. Manter o filhote em casa nos primeiros dois meses parece ser a única maneira de mantê-lo seguro contra doenças infecciosas, mas isso pode acarretar sérios problemas emocionais e comportamentais no futuro.


Então, o que os tutores devem fazer?


AS DUAS COISAS! As duas coisas são tão importantes que escolher entre uma e outra está fora de questão. Os tutores precisam saber como avaliar os riscos para que possam trabalhar em socialização sem expor os filhotes a riscos desnecessários enquanto se completa a imunização.


E o que isso tem a ver com COVID-19?


Acredito que avaliar riscos de contágio tenha ficado mais fácil agora que os tutores passaram pela experiência com COVID-19. As orientações que eu costumava passar aos meus clientes tutores de filhotes geralmente não eram muito bem recebidas, pois lhes pareciam difíceis de seguir em relação a seus filhotes. Atualmente, as pessoas já estão mais acostumadas a seguir o mesmo tipo de raciocínio em relação a elas mesmas, incluindo:

  • Evitar locais e/ou indivíduos que possam representar alto risco de exposição

  • Pensar antes sobre futuras interações e tomar muito cuidado

  • Restringir as interações a grupos limitados de indivíduos reconhecidamente seguros

  • Fazer perguntas (antes estranhas e, ainda, incômodas) sobre onde exatamente todos estiveram e quando

As pessoas "treinadas pela pandemia" acham mais fácil avaliar e tomar as decisões que vão ajudar a transformar seus filhotes em cães adultos confiantes, amigáveis e felizes.


VETERINÁRIOS COMPORTAMENTALISTAS DIZEM: NÃO ESPEREM PARA SOCIALIZAR!


Parvovirose e cinomose são doenças caninas mortais. Felizmente, existem vacinas eficazes. Porém, as doses de tais vacinas são aplicadas em uma série ao longo dos primeiros meses de vida do filhote, e não há como ter certeza de quando uma dose vai "pegar" e garantir imunidade. Essa imprevisibilidade tem a ver com a presença de anticorpos maternos, transferidos para os filhotes pela amamentação. É por isso que se exige cautela até que a série de vacinações esteja concluída.


Desde sempre, os veterinários aconselham os tutores a manterem seus filhotes em casa até que a imunização esteja completa. Alguns chegam a enfatizar que "manter distância de outros cães não é suficiente, porque as doenças estão à espreita por todos os lados.


Entretanto, nas últimas décadas, a ciência tem deixado muito claro que deixar passar esse período principal de socialização pode ser muito prejudicial para o filhote. Em 2018, a American Veterinary Society of Animal Behavior (AVSAB, de médicos veterinários especializados em comportamento) divulgou uma declaração oficial sobre isso. Uma parte dessa declaração diz o seguinte:


"O primeiro e mais importante período para a socialização de filhotes são os primeiros três meses de vida. Durante esse período, os filhotes devem ser expostos a tantos animais, pessoas, estímulos e ambientes novos quantos forem possíveis com segurança. Receberem tal socialização antes de estarem completamente vacinados deve ser o padrão de cuidado para filhotes."

O problema é que muitos veterinários (talvez a maioria, em algumas partes do mundo) ainda orientam seus clientes tutores de filhotes a esperar – provavelmente por desconhecimento ou por não confiarem no julgamento e na capacidade de avaliação de seus clientes. Mas também já há muitos veterinários (talvez a maioria, em outras partes do mundo) que defendem e aconselham uma socialização cuidadosa. Eles dizem que a parvovirose e a cinomose ainda estão por aí, em focos, por toda parte, mas deixam claro que é necessário fazer um esforço para dar aos filhotes uma possível – a melhor a a mais segura possível – desde o desmame até 16 semanas de idade.


CONSEQÜÊNCIAS DO ISOLAMENTO


As consequências da falta de socialização de um filhote durante esse período podem ser dolorosas. A AVSAB informa que a principal causa de morte de cães com menos de 3 anos de idade são questões comportamentais, não doenças infecciosas. Em casos extremos, cães medrosos podem se tornar agressivos e morder; em alguns casos, eles podem ser entregues a abrigos ou abandonados e, às vezes, acabam sendo sacrificados. É terrivelmente triste – e muitos dos casos poderiam ter sido evitados com uma "vacina" comportamental chamada Socialização.


A partir do nascimento dos filhotes, começa o aprendizado a respeito do mundo. Quanto mais interações positivas esses filhotes tiverem com novas visões, cheiros, sons, pessoas e animais, mais eles se sentirão confiantes diante de coisas novas pelo resto de suas vidas. Os benefícios são inúmeros e de extrema importância: passeios felizes em meio a outros cães e pessoas; facilidade de convívio com amigos e familiares (e seus pets); consultas veterinárias tranquilas; viagens tranquilas e prazerosas; e uma vida inteira sem estresse desnecessário.


Ao contrário, se você esperar que as vacinas estejam completas para se aventurar fora da redoma que é a sua casa, pode ser tarde demais! Por volta dos 4 meses de idade, a programação biológica da mente do filhote diz a ele que qualquer coisa nova e diferente pode ser uma ameaça. Você pode acabar tendo um cachorro arisco (ou pior) quando na presença de outras pessoas, outros cães e/ou lugares desconhecidos.


Se você nunca teve um cachorro assim, talvez seja difícil imaginar o quão triste e difícil isso pode ser. Eu tenho visto casos em primeira mão (bem como tenho ouvido relatos de colegas de profissão e lido casos relatados por adestradores renomados), ou seja, eu sei o que quase sempre acontece quando um filhote é adotado (ou comprado) e a socialização é interrompida, o filhote passando os próximos dois meses "protegido" no ambiente previsível de sua nova casa. Por volta dos 6 meses de idade ou mais, os donos podem estar arrasados por causa do comportamento geral do filhote, agora apresentando medo de várias coisas e situações. Geralmente, eles me dizem: "Pensamos que não seria problema esperar "só" dois meses; achamos que poderíamos compensar esse tempo mais adiante."


Infelizmente, o que muitos tutores (e – pasmem – muitos veterinários) não sabem é que a mente dos filhotes está programada pela evolução para funcionar desse jeito. Se a janela de tempo mais propícia for perdida, não tem como compensar depois porque não é assim que a natureza canina funciona.


A PARTE FÁCIL: SOCIALIZAÇÃO EM CASA


Numa coisa, todo mundo concorda: o primeiro passo da socialização, e o mais fácil, é saber aproveitar bem o tempo do filhote em casa. Para um filhote recém-chegado, sua própria casa é cheia de coisas "novas". Você só tem que ter cuidado para não exagerar e sobrecarregar o filhote com isso!


O objetivo do trabalho é ajudar o filhote a aprender que o mundo pode ser barulhento e imprevisível, sim, mas que pode ser bem divertido apesar disso e não há razão para ter medo. A velocidade com que se desenvolve esse trabalho deve ser adequada às especificidades de cada indivíduo (cão). Se ele parecer apreensivo – por exemplo, se ele não quiser comer petiscos ou se ele pegar os petiscos com muita força – deve-se aumentar a distância entre o estímulo (coisa nova e diferente) e o filhote e/ou diminuir a intensidade do estímulo de outra forma.


O filhote não deve ser impedido de ouvir ruídos "assustadores" como o do aspirador de pó ou o do liquidificador. Em vez disso, o filhote precisa passar por essas experiências, mas com a intensidade do estímulo sob controle e aumentando gradualmente. A distância pode ser usada a nosso favor, e as sutis reações do filhote devem ser usadas como "termômetro". Os estímulos podem ser combinados com pedacinhos de petisco. Se o filhote ficar apreensivo, a distância (e/ou a intensidade) não está adequada. O ideal é que o filhote continue a brincar e interagir alegremente com quem estiver conduzindo o processo.


O filhote pode ser levado (por exemplo, no colo) para ver o movimento da rua em frente de casa. Para ajudar o filhote a gostar dos caminhões, bicicletas, carrinhos de bebê e outros cães que passam, oferecemos a ele pedacinhos de frango (ou outro petisco de alto valor) a cada vez que uma dessas coisas estiver passando.


Combine com as pessoas da sua casa para que elas vistam e usem coisas "estranhas" todos os dias desse período: chapéus, máscaras, agasalhos, botas, mochilas, guarda-chuvas, óculos escuros, capacetes, skates, bengalas, muletas etc.. Mantenham suas vozes alegres e uma atitude leve e brincalhona.


O filhote deve ser incentivado a andar sobre todo tipo de superfície possível em casa: tapete, piso frio, madeira, grama, pedra, terra, colchonete, almofada, esteira, caixa de papelão etc.. Tais momentos devem ser transformados numa brincadeira divertida que inclua petiscos e/ou brinquedos favoritos do filhote.


Podemos usar a TV e certos áudios gravados para habituação de cachorros, para garantir que o filhote se habitue a choro de bebê, gritaria de crianças brincando, falatório de vozes masculinas graves, cantorias, palmas, alarmes, sirenes e diversos outros ruídos. E filhote deve estar se divertindo enquanto escuta esses sons (em níveis de volume cada vez um pouquinho mais altos).


É muito importante promover o encontro do filhote com pessoas de todos os tipos possíveis: crianças, idosos, um cara muito alto, outro cara com uma barba grande etc.. Até uma visita de cinco minutos faz diferença. Lembrando que, se o cachorro ficar nervoso: a distância deve ser aumentada; a pessoa pode se agachar, falar mais suavemente, mover-se mais lentamente etc.; o valor dos petiscos pode ser aumentado.


Qualquer visita, de um encanador ou eletricista (por exemplo), deve ser aproveitada como uma ótima oportunidade de socialização. Pergunte se eles se importariam de jogar um petisco para o seu cachorro (ou entregá-lo na mão, se o cachorro estiver suficientemente confiante e curioso).


PODE SER DIFÍCIL TOMAR DECISÕES NÃO TÃO ÓBVIAS


Fazer o máximo que for possível dentro de casa é um excelente começo, mas seu filhote também vai precisar sair por aí. E é aqui que vai entrar tudo o que você aprendeu com a COVID-19.


A primeira regra é fácil: evite cães desconhecidos e lugares frequentados por cães desconhecidos. Nada de parques, lojas de animais ou abrigos de cães até que seu filhote esteja completamente vacinado.


Todo o resto se enquadra na categoria "depende", e você vai ter que avaliar cada caso.


Talvez você possa expor seu filhote a novas pessoas e sons de uma rua movimentada usando um carrinho ou outro tipo de transportador, para que o filhote possa aproveitar o passeio sem entrar em contato com o chão.


Independente de qual seja a forma de transporte, seu filhote precisa passar por um processo gradual de habituação; do contrário, ele pode desenvolver medo por causa da forma que está sendo transportado.


Durante a fase sensível, alguns passeios de 15 minutos associados a um estado mental positivo podem moldar drasticamente a visão que seu filhote vai ter do mundo. Por mais que seja trabalhoso, vale muito a pena.


ENCONTROS DE FILHOTES


Encontros de filhotes fazem parte da socialização e merecem uma menção especial. Eles podem transformar seu filhote de um desafio em uma alegria ao oferecerem uma válvula de escape para aquelas brincadeiras de morder e ao ajudarem a cansar seu amiguinho, que tende a, por exemplo, morder os móveis da casa quando está com sua energia acumulada.


As brincadeiras que acontecem nesses encontros também aumentam drasticamente as habilidades do seu cãozinho de se comunicar com outros cães na linguagem deles. Isso vai ajudar seu cão a neutralizar encontros potencialmente inseguros no futuro. Portanto, consiga promover esses encontros para brincar – só não se esqueça de que os amiguinhos podem não estar adequadamente vacinados. Se o dono de um dos filhotes não estiver tomando todos os cuidados, o filhote dele pode expor o seu a um risco desnecessário.


Portanto, você só deve deixar seu filhote brincar com filhotes que:

  • Estejam em suas casas (e longe de locais de alto risco, incluindo abrigo ou criação irresponsável) por pelo menos duas semanas

  • Não estejam exibindo absolutamente nenhum sinal ou sintoma

  • Estejam seguindo o esquema vacinal com um veterinário

  • Pertençam a uma pessoa que esteja sendo tão cuidadosa com as exposições quanto você

Além de tomar decisões sensíveis sobre com quem seu filhote pode se encontrar e em quais lugares ele pode ir, você também deve tomar outros cuidados: boa nutrição, vermifugação, controle de pulgas e carrapatos e boa higiene são fundamentais para que um filhote desenvolva um sistema imunológico saudável.


A COVID-19 é horrível, sem dúvida!


Mas ela aumentou o tempo que as pessoas podem passar com seus cães, resultou em um maior número de acolhimentos em lares temporários e adoções definitivas, e aumentou o interesse de muitos tutores pelo adestramento de cães.


Acredito que ela também esteja ajudando os donos de filhotes a colocarem em prática as habilidades de avaliação de risco aprendidas, tão críticas para o controle de risco de doenças, permitindo que eles aproveitem bem essa janela de tempo única que é o período sensível de socialização e transformem seus filhotes em cães equilibrados, felizes e fáceis de lidar.


Quero crer que mais pessoas se permitirão sair de casa com seus filhotes, sem se descuidarem dos riscos de doenças infecciosas, para formar na cabecinha deles uma impressão quase permanente de que o mundo está cheio de coisas "novas" que podem ser maravilhosas.

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